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Passo a Passo da Leitura Literária

DOM CASMURRO – capítulo 52

By julho 3, 2020No Comments

DOM CASMURRO – CAPITULO 52       

O VELHO PÁDUA

          Já agora conto também os adeuses do velho Pádua. Logo cedo veio à nossa casa. Minha mãe disse-lhe que fosse falar-me ao quarto.

          – Dá licença? perguntou metendo a cabeça pela porta.

          Fui apertar-lhe a mão; ele abraçou-me com ternura.

          – Seja feliz! disse-me. A mim e a toda a minha gente creia que ficam muitas saudades. Todos nós estimamos muito ao senhor, como merece. Se lhe disserem outra coisa, não acredite. São intrigas. Também eu, quando me casei, fui vítima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio, – coisa que eu, por esta luz que me alumia, não desejo, porque são boas pessoas, excelentes pessoas, e eu sou grato às finezas recebidas… Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fora para desunião das famílias, aduladores baixos, não; eu sou de outra espécie; não vivo papando jantares nem morando em casa alheia… Enfim, são os mais felizes!

          “Por que falará assim? pensei. Naturalmente sabe que José Dias diz mal dele.”

          – Mas, como ia dizendo, se algum dia perder seus parentes, pode contar com a nossa companhia. Não é suficiente em importância, mas a afeição é imensa, creia. Padre que seja, a nossa casa está às ordens. Quero só que me não esqueça; não esqueça o velho Pádua…

          Suspirou e continuou:

          – Não esqueça o seu velho Pádua, e se tem algum trapinho que me deixe em lembrança, um caderno latino, qualquer coisa, um botão de colete, coisa que já lhe não preste para nada. O valor é a lembrança.

          Tive um sobressalto. Havia embrulhado em um papel um cacho dos meus cabelos, tão grandes e tão bonitos, cortados na véspera. A intenção era leva-los à Capitu, ao sair; mas tive ideia de dá-lo ao pai, a filha saberia tomá-lo e guardá-lo. Peguei do embrulho e dei-lho.

          – Um cachinho dos seus cabelos! Exclamou Pádua abrindo e fechando o embrulho. Oh! Obrigado! Obrigado por mim e pela minha gente! Vou dá-lo à velha, para guardá-lo, ou à pequena, que é mais cuidadosa que a mãe. Que lindos que são! Como é que se corta uma beleza destas? Dê cá um abraço! Outro! Mais outro! Adeus!

          Tinha os olhos úmidos deveras; levava a cara dos desenganados, como quem empregou em um só bilhete todas as suas economias de esperanças, e vê sair branco o maldito número, – número tão bonito! 

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Após a leitura responda às questões abaixo:

  1. O velho Pádua (pai de Capitu) foi despedir-se de Bento. Por que motivo?
  2. Na sua fala de despedida, Pádua referiu-se a pessoas como “certos parasitas”, “aduladores baixos”, “papando jantares”, “morando em casa alheia”. A quem ele se referia?
  3. O pai de Capitu pediu de Bentinho algo que o lembrasse. O que Bentinho lhe deu?

Respostas:

  1. Bentinho estava de viajem marcada para ir para o Seminário e deveria ficar um longo tempo sem vir para casa.
  2. À José Dias.
  3. Um cacho dos seus cabelos que havia cortado para dá-los a Capitu. Entretanto, diante do pedido de Pádua, resolveu dar a ele.

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