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Movimentos e Períodos Literários

LITERATURA BRASILEIRA – Movimentos e períodos literários – Roteiro 06 – A literatura brasileira a partir de 1500

By julho 31, 2020No Comments

ROTEIRO N° 06

1 – TEMA: A literatura brasileira a partir de 1500: literatura informativa e jesuítica.

2 – PRÉ-REQUISITO: 

  • Ler com compreensão.
  • Conhecer os principais eventos históricos de povos europeus, principalmente de Portugal.

3 – META: Ao final do estudo, você deverá ser capaz de:

  • interpretar textos
  • relacionar o período literário brasileiro aos principais eventos históricos ocorridos em Portugal e no mundo
  • identificar as características das obras do período inicial da literatura brasileira.  

4 – PRÉ-AVALIAÇÃO: O objetivo da pré-avaliação é diagnosticar o quanto se tem conhecimento de um assunto. Para isso, basta que você responda à Auto-avaliação que está no início deste Roteiro, antes de ler qualquer texto existente nele. Se você alcançar um resultado igual ou superior a 80 pontos, não precisa estudar o assunto, pois você já o domina suficientemente. Caso contrário, vá direto para as Atividades de Estudo.

5 – ATIVIDADES DE ESTUDO: Ler com entendimento é pré-requisito para se aprender qualquer coisa através da leitura. Portanto, faça o seguinte:

a) Tenha um dicionário de Português ao seu alcance, para consultá-lo sobre as palavras que você desconhece o significado;

b) Procure um lugar sossegado para ler os textos e fazer os exercícios;

c) Leia primeiro o texto; faça em seguida os exercícios; compare suas respostas com o gabarito e veja o que errou; retorne ao texto para verificar o porquê do erro.

6 – PÓS-AVALIAÇÃO: Após ter feito o estudo dos textos e os exercícios, responda às questões propostas na Auto-avaliação. Creio que você agora, acertará todas. Caso isso não aconteça, consulte as orientações dadas nas Atividades Suplementares.

7 – ATIVIDADES SUPLEMENTARES: Se você não conseguiu alcançar 80 pontos na Pós-avaliação, volte à leitura dos textos, agora com mais atenção. Sem pressa. A leitura com compreensão é a base da aprendizagem.

AUTO-AVALIAÇÃO

Responda às questões abaixo antes de ler qualquer texto deste Roteiro. Atribua 10 pontos para cada resposta correta. Se você alcançar 80 pontos na soma total, parabéns! Você não precisa estudar este Roteiro, pois já domina suficientemente o conteúdo existente nele. Caso contrário, leia as orientações das Atividades de Estudo.

1. Na Carta de Pero Vaz de Caminha:

a. (   ) reconhecemos um texto de informação que em nada pode ter influenciado os escritores que se sucederam na Literatura Brasileira.

b. (   ) vemos a preocupação do conquistador com a exploração do solo da terra conquistada, atitude única dos escritores da época, tal como o Padre Anchieta.

c. (   ) identificamos um escrito que, pela maneira nacionalista como apresenta a terra, será tomado como modelo para o modernismo de Oswaldo de Andrade.

d. (   ) temos um texto que, como todos os outros dos séculos XVI, XVII, XVIII, até o Romantismo, em nada contribuiu para a Literatura Brasileira.

e. (   ) encontramos as sementes da atitude de louvor à terra, que terá grande relevo no Romantismo.

2. No início de nossa literatura, são considerados informativos os textos que refletem uma visão da metrópole sobre a colônia. Apenas um dos textos abaixo NÃO pertence a esta categoria. Assinale-o:

a. (   ) A Carta, de Pero Vaz de Caminha.

b. (   ) Tratado Descritivo do Brasil, de Gabriel Soares de Souza.

c. (   ) Prosopopéia, de Bento Teixeira.

d. (  ) Diálogo das Grandezas do Brasil, de Ambrósio Fernandes Brandão.

e. (   ) Diálogos sobre a Conversão do Gentio, de Pe. Manoel da Nóbrega.

3. “Esta Província de Santa Cruz, além de ser tão fértil como digo, e abastada de todos os mantimentos necessários para a vida do homem, é certo ser também muito rica, e haver nela muito ouro e pedraria, de que se tem grandes esperanças.” – Como demonstra esta afirmação, de Pero de Magalhães Gândavo, a literatura dos que aqui estiveram nos séculos XVI e XVII:

a. (   ) indica com a maior exatidão possível e com verdadeiro espírito científico, as potencialidades econômicas do novo território.

b. (   ) mostra a atitude de superioridade e menosprezo com que o europeu encarava a nova terra e a selvageria dos seus habitantes.

c. (   ) constitui a primeira manifestação de sentimento nacionalista, que iria crescendo à medida que se desenvolvia a literatura brasileira.

d. (  ) adquiriu – não sendo propriamente ficção – inestimável valor documental, por transmitir a primeira visão da terra virgem, encarada como um lendário paraíso perdido.

e. (   ) contém mais ficção do que propriamente informação.

4. Entende-se por literatura informativa no Brasil:

a. (  ) o conjunto de relatos de viajantes e missionários europeus sobre a natureza e o homem brasileiro.

b. (   ) a história dos jesuítas que aqui estiveram no século XVI.

c. (   ) as obras escritas com a finalidade de catequese dos índios.

d. (   ) os poemas do Padre José de Anchieta.

e. (   ) os sonetos de Gregório de Matos.

5. “Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.” No texto acima, de Pero Vaz de Caminha, notamos que:

a. (   ) ele assume a atitude de um observador frio.

b. (   ) que Caminha se empolga pelas coisas vistas na terra.

c. (   ) que o escritor descobriu águas-marinhas.

d. (   ) Caminha apenas está atento ao que vê, desprezando o entusiasmo tão comum na terra.

6. Assinale a única alternativa INCORRETA:

a. (   ) A literatura de viagens constitui valioso documento do Brasil-Colônia.

b. (   ) Na literatura de viagens encontramos informações sobre a natureza e o homem brasileiro.

c. (   ) os primeiros escritos sobre o Brasil pertencem à categoria de literatura, uma vez que notamos neles preocupações estéticas. 

d. (   ) o mito ufanista é representado pelo louvor à terra fértil e a natureza como algo exuberante.

7. As manifestações literárias no Brasil do século XVI foram fundamentalmente:

a. (  ) relatos de viajantes e missionários estrangeiros e obras escritas por Anchieta.

b. (   ) poemas épicos indianistas e poesia lírica de caráter religioso.

c. (   ) teatro de sátira política  e crônicas sobre o cotidiano das pequenas cidades.

d. (   ) obras de caráter pedagógico, de circulação restrita.

e. (   ) cartas dos colonos aos familiares da metrópole e documentos de protesto contra a escravidão dos negros.

8. A literatura jesuítica, nos primórdios  de nossa história:

a. (   ) tem grande valor informativo.

b. (   ) marca nossa maturação clássica.

c. (   ) visava a catequese do índio, a instrução do colono e sua assistência religiosa e moral.

d. (   ) estava a serviço do poder real.

e. (   ) tem fortes doses nacionalistas.

9. Três jesuítas se destacaram nos primórdios  da colonização, seja por sua intensa atividade, seja por seus escritos. Um deles , no entanto, salientou-se por sua obra literário-missionária, como poeta e teatrólogo. Trata-se de:

a. (   ) Padre Antônio Vieira

b. (   ) Padre Manuel da Nóbrega

c. (   ) Padre José de Anchieta

d. (   ) Padre Fernão Cardim

10. O Padre José de Anchieta colaborou com o Padre Manuel da Nóbrega na fundação do Colégio de Piratininga, a 25 de janeiro de 1554, dando início à cidade de:

a. (   ) Salvador

b. (   ) Rio de Janeiro

c. (   ) Recife

d. (   ) São Paulo

GABARITO

1. E     2. C     3. D     4. A      5. B       6. C     7. A      8. A     9. C      10. D 

ANEXO A – Introdução ao estudo da Literatura Brasileira

          A partir deste Roteiro, vamos voltar no tempo e embarcar nos navios comandados por Pedro Álvares Cabral e aportar no Brasil, para acompanhar o nascimento e o desenvolvimento da literatura brasileira.

          Inicialmente, vamos estudar as origens e características gerais da nossa literatura.

          Podemos dividir a origem da literatura brasileira em duas partes:

  1. a literatura informativa
  2. a literatura jesuítica

LITERATURA INFORMATIVA

          A literatura informativa, naturalmente, teve início com a chegada de Cabral ao Brasil, em 1500, e com a carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal, informando-o sobre a terra.

          Os cronistas portugueses do século XVI que escreveram a respeito do Brasil – Pero Vaz de Caminha, Pero de Magalhães Gândavo, Frei Vicente do Salvador e outros – foram os primeiros a colher informações sobre a natureza e o homem brasileiro. Como o Brasil só era habitado por índios, um povo de cultura rudimentar, quando Cabral aqui chegou, era de se esperar que não havia escritores entre eles. Por isso, tudo o que foi escrito por pessoas nascidas aqui ou que vieram morar no Brasil durante os 300 anos após o descobrimento, teve influência da literatura europeia ou portuguesa.

          Nossas primeiras manifestações literárias nortearam-se pelas tendências quinhentistas de Portugal. Assim, o Classicismo e reminiscências medievais moldaram a formação da literatura brasileira. Durante o primeiro século de colonização foram claras essas tendências. É indiscutível a presença de Camões nas primeiras obras literárias do Brasil-Colônia, o que nos é confirmado pela obra Prosopopéia, de Bento Teixeira, no século XVI. 

          De escassa relevância literária, mas rica do ponto de vista informativo sobre a terra recém-descoberta, a literatura de viagens, praticada por escritores de língua portuguesa, constitui um valioso documento do Brasil-Colônia. 

          Esses escritos foram incluídos no gênero da crônica histórica porque nos revelam as condições ambientais do começo da colonização brasileira. Inúmeros estudiosos e pesquisadores literários apontam a exaltação deslumbrante da terra como um dos traços definidores das primeiras manifestações literárias no Brasil. Foi bastante visível, nesse período, a influência da literatura portuguesa. De acordo com os textos da época, o Brasil era um autêntico paraíso terrestre, onde tudo concorria para fazer a vida nesse lugar uma aventura maravilhosa. O Novo Mundo era tido como um “paraíso perdido”, nas palavras dos primeiros colonizadores europeus que entraram em contato com a terra brasileira.

          Por conta desta ideia (“paraíso terrestre”) o que era escrito a respeito, traduzia que: não havia enfermidades no Brasil; a vida era longa; não se sentia calor nem frio exagerados. Essas ideias de viver deliciosamente em terras brasileiras, não aparecem apenas nos escritos informativos dos cronistas. Padre José de Anchieta registrou, por exemplo, que as estações aqui pareciam temperadas pois, “não faltavam no tempo do inverno os calores do sol para contrabalançar os rigores do frio; nem no estio, para tornar mais agradáveis os sentimentos, as brandas aragens e os úmidos chuveiros”.

          O Brasil logo se tornou cobiçado por outras nações. Para cá vieram viajantes, aventureiros e invasores estrangeiros. Dentre eles, alguns também produziram textos informativos sobre a nossa terra: o alemão Hans Staden; os franceses André Thevet, Jean de Léry, Claude d’Abbeville e Yves d’Évreux. Mas, sem dúvida, os documentos mais ricos e minuciosos são os de origem portuguesa. Eis os principais:

1. A Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, que dá início à nossa Literatura de Informação;

2. Diário de Navegação, escrito por Pero Lopes de Souza, é o roteiro da expedição de Martim Afonso de Souza, de Portugal ao Brasil, em 1530.

3. História da Província de Santa Cruz, escrita por Pero de Magalhães Gândavo, em 1576.

4. Tratado Descritivo do Brasil em 1587,  de Gabriel Soares de Souza.

LITERATURA DOS JESUÍTAS

          Com a vinda dos jesuítas para o Brasil a partir de 1549, no governo de Tomé de Souza, foram organizados os primeiros colégios sob a chefia desses padres.

          A presença dos jesuítas na parte educacional deixou raízes profundas na formação intelectual da época. A atividade intelectual dos jesuítas baseava-se, principalmente, no estudo do latim e de humanidades clássicas. Conhecer o latim era o ponto máximo a que um intelectual poderia chegar na época da colonização.

          Entretanto, o objetivo dos jesuítas era o ensino da Teologia para fazer a catequese dos índios, e a maior parte do que foi escrito estava condicionada ao processo dessa catequização. Por isso, a literatura no Brasil, iniciou-se através do teatro, a arte mais favorável ao atingimento dos objetivos desses religiosos. Mas os jesuítas também escreveram em outros gêneros literários – sermões, poemas, crônicas. Houve farto material escrito pelos padres. São sobretudo cartas, anuários, relatórios onde registraram informações diversas sobre seu trabalho missionário e educativo e a vida na colônia. Três padres jesuítas se destacam:

  1. Pe. Manuel da Nóbrega: sua obra Diálogo sobre a conversão do gentio (1557) é o que apresenta um nítido trabalho literário. A obra consiste num debate entre dois personagens sobre a conversão do índio à fé cristã.
  2. PeFernão Cardim (1548-1625): sua obra Tratados da terra e gente do Brasil chama a atenção por sua linguagem admirativa, bem-humorada e simpática relacionados ao Brasil e seus habitantes.
  3. PeJosé de Anchieta (1534-1597): destacou-se como poeta e teatrólogo, é considerado a mais importante figura literária dessa época. Dentre seus escritos destaca-se o Auto de São Lourenço (peça teatral);  A Santa Inês (poesia).

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LEITURA COMPLEMENTAR

Pero Vaz também encriptou

          Padres e letrados batizaram o Brasil. No alvorecer do século XVI, rodeado de católicos, nosso primeiro autor escreveu famosa Carta em português. Mas pensava que estivesse numa ilha, a Ilha de Vera Cruz. Vera, sinônimo de verdadeira, para diferenciá-la da outra cruz, a da Reforma.

          A leitura de nossa Certidão de Nascimento traz algumas complicações. Que não seja heresia de escritor, mas Pero Vaz de Caminha precisa ser traduzido.

          Aqueles antigos navegantes já conviviam com palavras de diversas línguas, encarapitadas na Carta. Transportar palavras é sina de quem viaja. E elas podem mudar de significado a cada porto.

          Os atuais internautas, de vocabulário tão reduzido, ainda que navegando em outros mares, também trazem palavras cujo significado às vezes nos soa estranho.

          Veja-se o recente exemplo do verbo encriptar. Naturalmente, o internauta que encripta, também encarapita. Encarapitar é elevar, pôr no alto. A palavra foi suavizada. No nascimento, foi pronunciada “encarrapitar”, isto é, semelhar o carrapito, subir, fixar-se no alto.

          O carrapito designa o chifre do cabrito e o feixe de cabelos, estejam estes últimos amarrados em cima da cabeça ou na nuca. Neste caso, ganha o popular nome de rabo, do latim rapum, designando originalmente o caule de uma planta. Mais tarde, deixando o pomar e o quintal, tornou-se sinônimo de cauda. Daí, a designar o feixe de cabelos com a aparência do rabo dos animais, foi um pulinho.

          Os modernos internautas, encarapitados em outras naus, os computadores, encriptam. Mas encriptar é pôr na cripta? Cripta, que no português do Brasil tem o significado de caverna, gruta, grota, galeria subterrânea, veio do grego krypte, palavra assemelhada com o verbo krypto, esconder.

          Antes de chegar ao português, a cripta grega (krypte) fez escala na cripta latina (crypta). Quando a palavra gerou encriptar, por influência do latim do império, o inglês encrypt, virou sinônimo de criptografar, escrever em caracteres de significados conhecidos de poucos, vale dizer, esconder o significado nas galerias, nas grotas ou grutas das palavras.

          Lida hoje, a escrita da Carta parece criptografada. Ou encriptada, como diriam os internautas. “Trouxeram-lhes vinho em uma taça”, escreveu Caminha. “Mal lhe puseram a boca; não gostaram dele nada, nem quiseram mais.”

          Vinho, taça e boca são nossos velhos conhecidos. “Trouxeram-lhes água em uma albarrada.” E agora? A água estava misturada com barro? “Apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora”.  Acostumados a beber água limpa e fresca, os índios recusaram a água da vasilha de barro. Tinham água melhor em terra.

          “E pescaram lá, andando alguns marinheiros com um chinchorro.” Chinchorro, rede de pescar, veio de chincho, do latim cingulus, utensílio doméstico para apertar o queijo e espremer o soro. Mas na pecuária tornou-se feminino e, em vez de espremer o soro, serviu para apertar a barriga do animal com o fim de fixar os arreios. Feita de barbante, a chincha assemelha-se a uma rede.

          Desembarcaram em “esquifes”, mas eram barcos e não caixões de defuntos. “É a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos, muito chã e muito formosa.” Com o português ainda muito próximo do espanhol, provavelmente alguns marinheiros pronunciassem “tchã”. E talvez por terem aportado justamente à Bahia, nossos destemidos navegadores seguraram ali o “tchã” pela primeira vez, seguindo o conselho de futuro grupo musical: “Tudo o que é perfeito a gente pega pelo braço, joga lá no meio, mete em cima, mete em baixo, depois de nove meses, você vê o resultado”. 

          Faz mais de cinco séculos e todos podem ver o resultado. A língua e o povo são os pontos altos.

(Deonísio da Silva, A língua nossa de cada dia. 1a edição, 2007, Novo Século Editora, SP)

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