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Passo a Passo da Leitura Literária

Dom Casmurro – cap. 44 e 45

By abril 23, 2020No Comments

DOM CASMURRO – Capítulo 44

O PRIMEIRO FILHO

          – Dê cá, deixe escrever uma coisa.

          Capitu olhou para mim, mas de um modo que me fez lembrar a definição de José Dias, oblíqua e dissimulada; levantou o olhar, sem levantar os olhos. A voz, um tanto sumida, perguntou-me:

          – Diga-me uma coisa, mas fale verdade, não quero disfarce; há de responder com o coração na mão.

          – Que é? Diga.

          – Se você tivesse de escolher entre mim e sua mãe, a quem é que escolhia?

          – Eu?

          Fez-me sinal que sim.

          – Eu escolhia… mas para que escolher? Mamãe não é capaz de me perguntar isso.

          – Pois sim, mas eu pergunto. Suponha você que está no seminário e recebe a notícia de que eu vou morrer…

          – Não diga isso!

          – …ou que me mato de saudades, se você não vier logo, e sua mãe não quiser que você venha, diga-me, você vem?

          – Venho.

          – Contra a ordem de sua mãe?

          – Contra a ordem de mamãe.

          – Você deixa seminário, deixa sua mãe, deixa tudo, para me ver morrer?

          – Não fale em morrer, Capitu!

          Capitu teve um risinho descorado e incrédulo, e com a taquara escreveu uma palavra no chão. Inclinei-me e li: mentiroso.

          Era tão estranho tudo aquilo, que não achei resposta. Não atinava com a razão do escrito, como não atinava com a do falado. Se me acudisse ali uma injúria grande ou pequena, é possível que a escrevesse também, com a mesma taquara, mas não me lembrava nada. Tinha a cabeça vazia. Ao mesmo tempo tomei-me de receio de que alguém nos pudesse ver ou ler. Quem, se éramos sós? D. Fortunata chegara uma vez à porta da casa, mas entrou logo depois. A solidão era completa. Lembra-me que umas andorinhas passaram por cima do quintal e foram para os lados do Morro de Santa Teresa; ninguém mais. Ao longe, vozes vagas e confusas, na rua um tropel de bestas, do lado da casa o chilrear dos passarinhos do Pádua. Nada mais, ou somente este fenômeno curioso, que o nome escrito por ela não só me espiava do chão com gesto escarninho, mas até me pareceu que repercutia no ar. Tive então uma ideia ruim; disse-lhe que, afinal de contas, a vida de padre não era má, e eu podia aceitá-la sem grande pena. Como desforço, era pueril1; mas eu sentia a secreta esperança de vê-la atirar-se a mim lavada em lágrimas. Capitu limitou-se a arregalar muito os olhos, e acabou por dizer:

          – Padre é bom, não há dúvida; melhor que padre só cônego, por causa das meias roxas. O roxo é cor muito bonita. Pensando bem, é melhor cônego.

          – Mas não se pode ser cônego sem ser primeiramente padre, disse-lhe eu mordendo os beiços.

          – Bem; comece pelas meias pretas, depois virão as roxas. O que eu não quero perder é a sua missa nova; avise-me a tempo para fazer um vestido à moda, saia balão e babados grandes… Mas talvez nesse tempo a moda seja outra. A igreja há de ser grande, Carmo ou S. Francisco.

          – Ou Candelária.

          – Candelária também. Qualquer serve, contando que eu ouça a missa nova. Hei de fazer um figurão. Muita gente há de perguntar: “Quem é aquela moça faceira que ali está com um vestido tão bonito?” – “Aquela é D. Capitolina, uma moça que morou na Rua de Matacavalos…”

          – Que morou? Você vai mudar-se?

          – Quem sabe onde é que há de morar amanhã? disse ela com um tom leve de melancolia; mas tornando logo ao sarcasmos2. E você no altar, metido na alva, com a capa de ouro por cima, cantando… Pater noster…

          Ah! como eu sinto não ser um poeta romântico para dizer que isto era um duelo de ironias! Contaria os meus botes e os dela, a graça de um e a prontidão de outro, e o sangue correndo, e o furor na alma, até ao meu golpe final que foi este:

          – Pois, sim, Capitu, você ouvirá minha missa nova, mas com uma condição.

          Ao que ela respondeu:

          – Vossa Reverendíssima pode falar.

          – Promete uma coisa?

          – Que é?

          – Diga se promete.

          – Não sabendo o que é, não prometo.

          – A falar a verdade, são duas coisas, continuei eu, por haver-me acudido outra ideia.

          – Duas? Diga quais.

          – A primeira é que só se há de confessar comigo, para eu lhe dar a penitência e a absolvição. A segunda é que…

          – A primeira está prometida, disse ela vendo-me hesitar, e acrescentou que esperava a segunda. 

          Palavra que me custou, e antes não me chegasse a sair da boca; não ouviria o que ouvi, e não escreveria aqui uma coisa que vai talvez achar incrédulos.

          – A segunda… sim… é que… Promete-me que seja eu o padre que case você?

          – Que me case? disse ela um tanto comovida.

          Logo depois fez descair os lábios, e abanou a cabeça.

          – Não, Bentinho, disse, seria esperar muito tempo; você não vai ser padre já amanhã, leva muitos anos… Olhe, prometo outra coisa; prometo que há de batizar o meu primeiro filho.

Nota explicativa:

1 – pueril: ingênuo, infantil, próprio de crianças

2 – sarcasmo: zombaria maliciosa

DOM CASMURRO – capítulo 45

Abane a cabeça, leitor

          Abane a cabeça, leitor; faça todos os gestos de incredulidade. Chegue a deitar fora este livro, se o tédio já o não obrigou a isso antes; tudo é possível. Mas, se o não fez antes e só agora, fio que torne a pegar do livro e que o abra na mesma página, sem crer por isso na veracidade do autor. Todavia, não há nada mais exato. Foi assim mesmo que Capitu falou, com tais palavras e maneiras. Falou do primeiro filho, como se fosse a primeira boneca.

          Quanto ao meu espanto, se também foi grande, veio da mistura com uma sensação esquisita. Percorreu-me um fluido. Aquela ameaça de um primeiro filho, o primeiro filho de Capitu, o casamento dela com outro, portanto, a separação absoluta, a perda, a aniquilação, tudo isso produzia um tal efeito, que não achei palavra nem gesto; fiquei estúpido. Capitu sorria; eu via o primeiro filho brincando no chão.

Responda às questões abaixo a respeito dos capítulos 44 e 45.

1. Capitu, para se certificar do amor que Bentinho diz ter por ela, apresenta duas situações de escolha. Quais são?

2. Qual foi a resposta de Bentinho?

3. A conversa flui para a possível situação de Bentinho tornar-se padre e Capitu revela o desejo de assistir à primeira missa que Bentinho deve celebrar. Qual é a reação de Bentinho?

4. Quais as condições que Bentinho impõe para Capitu assistir a sua primeira missa?

5. Qual foi a resposta de Capitu?

6. No capítulo 45, Bentinho passa a analisar a conversa contida no capítulo 44 e descobre algo que o deixa espantado. O que é?

Respostas:

1. a) Bentinho deveria escolher entre Capitu e a mãe dele.

    b) Bentinho deveria deixar o seminário contra a vontade da mãe dele para atender a um chamado de Capitu, que está morrendo.

2. a) Na primeira situação, Bentinho não dá uma resposta direta. Apenas disse que sua mãe não seria capaz de o colocar nessa situação de escolha.

    b) Entretanto, na segunda situação, respondeu que sairia do seminário para vê-la antes de morrer, contrariando a possível ordem de sua mãe.

3. Bentinho embarca na ideia de tornar-se padre ao dizer para Capitu que ela certamente assistirá à missa sob duas condições.

4. a) Capitu só deveria se confessar com ele.

    b) Que seria ele, Bentinho, o padre que celebraria o casamento de Capitu.

5. Capitu respondeu que não seria ele que faria o seu casamento pelo fato de que ela certamente casaria antes dele se tornar padre. Em troca, seria ele a batizar o seu primeiro filho.

6. A possibilidade de Bentinho tornar-se padre levaria Capitu a casar-se com outro homem, ter filhos e Bentinho perderia para sempre o amor de sua vida.

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